Braga orgulha-se de ser uma cidade jovem, dinâmica, inovadora e culturalmente rica. Nos últimos anos, tem acumulado distinções, estratégias e planos, apregoando ser uma cidade inclusiva e socialmente coesa. No entanto, por detrás desta imagem ao exterior comercializada, permanece uma questão central e incómoda: até que ponto existe, de facto, coesão social em Braga?
A coesão social não se mede apenas pelo crescimento económico, pelo número de eventos culturais ou pela modernização urbana. Afere-se, sobretudo, pela capacidade de uma cidade não deixar ninguém para trás. E é aqui que Braga revela as suas incoerências e contradições.
Por um lado, o Município tem investido em políticas sociais, como o Plano de Desenvolvimento Social Braga 2030, bem como em redes locais de ação social, projetos de inclusão, mostrando disponibilidade e abertura à diversidade cultural e à participação cívica. Com efeito, parece existir um discurso político em torno da igualdade de oportunidades, da inclusão, da não violência e até da inovação social. Estes são sinais positivos e necessários.
Por outro lado, a realidade experienciada no dia a dia pelos cidadãos, pelos profissionais e pelas diversas instituições faz pelejar aos quatro ventos que a coesão social não se constrói apenas com planos estratégicos. Apesar da mesma até se fazer constar em documentos, planos de ação, certo é que persistem desigualdades profundas no acesso à habitação, no emprego digno, na integração de migrantes, na pobreza infantil, no envelhecimento e na prevenção de situações de violência. Em alguns territórios deste concelho, a distância entre quem participa ativamente na vida urbana e quem permanece invisível é cada vez maior.
A coesão social exige – mais do que documentos e participação simbólica – escuta ativa, conhecimento do território e participação real. Em verdade, sempre que a comunidade sente que as decisões são tomadas longe das suas realidades e necessidades, instala-se a desconfiança, o afastamento e o desinteresse cívico. Uma cidade coesa é aquela onde as pessoas sentem que pertencem, que contam e que têm voz.
Braga encontra-se, assim, num ponto de equilíbrio instável: entre a possibilidade e a impossibilidade da coesão social. Possível, porque existem recursos, conhecimento, instituições e uma forte vontade dos e das profissionais em fazer mais e melhor. Impossível, se a coesão continuar a ser tratada como um objetivo abstrato, desligado das desigualdades concretas, que afetam a vida das pessoa, como um ponto acessório e suplementar de um programa político e, subsequentemente, arredado para categoria pobre de um orçamento municipal, gordo em tantas outras áreas e valências.
A verdadeira coesão social exige escolhas difíceis: investir mais nos projetos das instituições e profissionais da rede social local do que nos projetos de prestígio (não passíveis de adaptação à nossa realidade e necessidades), priorizar pessoas em vez de rankings, garantir direitos básicos antes de promover imagens de excelência urbana. Exige também corresponsabilização: do poder local, das instituições, das associações e dos próprios cidadãos.
No fundo, a pergunta não é se Braga pode ser uma cidade coesa, mas se está disposta a enfrentar as suas fragilidades com a mesma determinação com que celebra os seus sucessos. Enquanto houver cidadãos que não se sintam parte da cidade, a coesão social em Braga continuará a ser, simultaneamente, uma promessa e um desafio por cumprir. A coesão social não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo, feito de proximidade, justiça social e coragem política.