Em Braga, há cada vez mais famílias que chegam dos mais variados pontos do globo e que trazem consigo não apenas a esperança de um futuro seguro, mas também o peso de um choque cultural e linguístico profundo.
Nas escolas tentamos ser o primeiro porto de abrigo para estas pessoas. Contudo, a estrutura escolar não consegue suprir algumas das dificuldades que nos são relatadas diariamente, por mais empenhada que seja a equipa. Nas salas de aula, ensinamos a dizer “bom dia” e a conjugar o verbo “ser”, mas não conseguimos ensinar uma criança a concentrar-se quando ela não sabe se os pais vão conseguir pagar a renda no final do mês. É impossível ignorar a angústia de uma mãe que não entende o sistema de saúde ou de um pai que, apesar de ser engenheiro no seu país, não sabe por onde começar para encontrar trabalho aqui.
Quando uma família chega sem falar uma palavra de português, sem um teto fixo, ou sem compreender os meandros da nossa burocracia, a escola torna-se insuficiente para tamanha complexidade. É precisamente neste cenário que entra o papel vital e insubstituível de associações como a Conquista Vontades ou a UAI.
Estas entidades falam a língua da experiência migratória e atuam como verdadeiros tradutores culturais que explicam costumes e facilitam o diálogo com todas as outras instituições. A Conquista Vontades, sediada em S. Lázaro, é um exemplo extraordinário de resiliência, pois embora tenha nascido focada na comunidade senegalesa ajuda hoje migrantes de várias nacionalidades. Já a Associação UAI, situada em Maximinos, desempenha um papel fulcral junto da comunidade lusófona e brasileira com um impacto visível na humanização do acolhimento.
Sabemos que a angústia da documentação é o maior entrave à saúde emocional dos migrantes. Estas associações procuram orientar as famílias pelo labirinto legal da residência e da nacionalidade ao oferecerem aconselhamento jurídico e pedagógico ou até apoio na área da saúde. A sua intervenção passa ainda pela distribuição de bens essenciais para mitigar as necessidades mais prementes de quem as procura, mas não esquece as raízes e a cultura, realizando eventos e mostras.
A relevância deste trabalho para Braga é estratégica, pois a nossa cidade é hoje cosmopolita, mas essa diversidade só se traduz em riqueza se houver harmonia. Sem o trabalho destas associações, teríamos comunidades paralelas e uma pressão incomportável sobre os serviços públicos, que muitas vezes não conseguem dar resposta por falta de meios ou de competências específicas.
Estas entidades não fazem apenas caridade, mas uma verdadeira gestão de coesão social. Ensinam o migrante a ser cidadão em Portugal (e em Braga), com direitos e deveres, enquanto sensibilizam a comunidade de acolhimento para a mais-valia que estes novos residentes trazem. Braga mudou e hoje somos uma cidade mais rica porque somos mais diversos. No entanto, essa harmonia não cai do céu e é construída no dia a dia por estas associações que fazem o trabalho invisível que as instituições oficiais, por vezes demasiado rígidas, não conseguem realizar.
Integrar não é apenas dar um lugar na escola, mas também dar um lugar na cidade. Como coordenadora de Português Língua Não Materna, agradeço a existência destas mãos estendidas que transformam o medo da chegada na esperança de um recomeço. Por isso, não posso terminar sem deixar um reconhecimento profundo à Saidatina Dias, da Conquista Vontades, e à Alexandra Gomide, da Associação UAI, pela disponibilidade e abertura constantes na colaboração com as nossas escolas. O trabalho articulado entre instituições prova que ninguém consegue fazer este caminho sozinho e que todos juntos conseguimos fazer melhor por quem escolhe Braga para recomeçar.