Do silêncio da Sé ao ruído dos badalos: uma viagem entre Braga e a Raia

Lembro-me perfeitamente da minha primeira Páscoa em Idanha-a-Nova, logo após me ter casado com um beirão de gema. Vinda do Minho, onde o Domingo de Páscoa é marcado por uma coreografia milenar de tapetes de flores e campainhas de compasso que anunciam a visita do Senhor a cada porta, o choque cultural foi imediato.

Em Braga, o Domingo de Páscoa é o dia em que a cidade se abre ao exterior. Na Idanha, para meu espanto, o dia é de um recolhimento quase doméstico, focado na mesa e na família.

Porém, o verdadeiro abalo nas minhas convicções minhotas aconteceu no dia anterior, no Sábado de Aleluia, quando percebi que a alegria da Ressurreição ali não esperava pelo nascer do sol de domingo para se manifestar.

O meu espanto foi absoluto quando vi a vila inteira sair à rua, não com a contenção das nossas procissões, mas com uma energia que parecia brotar das pedras da Raia. Ao som da banda filarmónica, que abria a procissão, as pessoas empunhavam apitos e agitavam badalos de gado, criando uma sinfonia ruidosa e orgânica que ecoava pelas ruas estreitas que sobem e descem pela vila. Era uma explosão de vida, uma forma de “correr com o mal” que me pareceu, na altura, quase pagã, tão habituada que estava à solenidade bracarense.

No adro da igreja matriz, vi o padre, num gesto de uma proximidade desarmante, atirar mãos cheias de amêndoas à multidão, provocando uma disputa alegre e comunitária pelos doces, um ritual que quebrava qualquer barreira entre o sagrado e o profano e que celebrava a fartura após o longo jejum da Quaresma.

Ao longo de todos estes anos a dividir o coração entre estas duas geografias, aprendi a ler as diferenças entre a “Cidade dos Arcebispos” e a “Vila das Flores” como duas linguagens de uma mesma devoção.

Braga é o império da transcendência, onde a Semana Santa se veste de roxo e granito, elevando a fé a uma arte sacra que atrai o mundo. É o lugar da memória recuperada, onde procissões como a do Enterro do Senhor mantêm uma gravidade que nos faz sentir pequenos perante o mistério.

Por outro lado, Idanha oferece-nos o toque, o ruído dos chocalhos que nos ligam à terra e à natureza. Enquanto Braga nos convida à contemplação do divino através da beleza do rito, Idanha obriga-nos a participar na vitória da vida com o corpo todo, num Sábado de Aleluia que não pede licença para ser feliz.

Estas duas Páscoas, embora separadas por centenas de quilómetros e por séculos de hábitos distintos, acabam por se completar na minha identidade. Sinto falta do compasso bracarense, do cheiro a incenso da Sé e daquela solenidade que parece suspender o tempo, mas habituei-me ao estremecer do chão de Idanha quando os badalos anunciam que a tristeza acabou. O que Braga tem de majestade, Idanha tem de verdade telúrica. Uma faz-nos olhar para o céu com respeito, enquanto a outra nos ensina que a alegria da ressurreição também se faz com o barulho da gente e com a doçura de uma amêndoa apanhada no ar, em pleno adro, no coração da Beira Baixa.

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