A culpa mora sempre no mandato anterior

A memória é uma coisa curiosa. Na vida, tende a falhar com a idade. Na política, falha quase sempre quando muda o lugar ocupado na fotografia.

O atual executivo tem procurado demarcar-se do anterior, apontando erros, opções discutíveis e projetos que, segundo a narrativa atual, representam exemplos do que não deveria ter sido feito. É um direito legítimo e inquestionável. Quem governa deve avaliar criticamente o que recebe e corrigir aquilo que considera necessário.

O problema surge quando essa crítica parece ignorar que o atual presidente da Câmara integrou o executivo municipal durante oito anos. Não era um comentador de bancada nem um cronista independente. Era membro da equipa governativa e partilhava, em maior ou menor medida, a responsabilidade política pelo rumo seguido. Naturalmente, isso não significa que tenha concordado com todas as decisões. Os executivos municipais não são blocos monolíticos e nem todas as opções são decididas ou defendidas da mesma forma por todos os seus membros. Porém, significa, inevitavelmente, que fez parte de um projeto político comum que, durante anos, foi apresentado aos bracarenses como merecedor da sua confiança.

É precisamente por isso que algumas críticas atuais provocam uma inevitável sensação de estranheza. Não porque não possam ser feitas, mas porque parecem ser formuladas como se viessem de quem sempre esteve do lado de fora.

Mais curioso ainda é verificar que esta amnésia seletiva não parece limitar-se ao executivo. Também na Assembleia Municipal, muitos dos eleitos que hoje aplaudem as críticas dirigidas ao passado pertencem ao mesmo espaço político que, durante anos, defendeu, justificou e votou favoravelmente muitos dos projetos que agora são criticados ou descartados.

Aparentemente, as convicções políticas têm um prazo de validade coincidente com a tomada de posse de um novo presidente.

Tudo isto seria apenas um curioso exercício de retórica se Braga não enfrentasse problemas que exigem muito mais do que revisões permanentes do passado. A habitação continua difícil, a mobilidade continua desafiante, o ambiente urbano coloca novos desafios e as freguesias continuam a reclamar maior atenção. Nenhum destes problemas se resolve através de um interminável debate sobre quem deve carregar o peso da herança.

Existe uma diferença importante entre prestar contas e ajustar contas. A primeira atitude fortalece a democracia porque assume responsabilidades perante os cidadãos. A segunda limita-se, muitas vezes, a procurar um culpado conveniente.

Talvez esteja na altura de aceitar uma evidência simples: quem integrou durante oito anos um executivo não pode comportar-se como se tivesse descoberto os seus defeitos apenas no dia em que mudou de gabinete. E quem durante anos defendeu determinados projetos na Assembleia Municipal dificilmente convence os cidadãos de que sempre pensou o contrário.

Os bracarenses têm boa memória, mas caso precisem de a reavivar, existem atas, declarações públicas, votações e registos suficientes para ajudar a recordar.

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