Nem feudos nem trincheiras

Num momento em que a vida democrática local em Braga revela toda a sua complexidade, importa centrar o debate naquilo que verdadeiramente interessa: o serviço à população.

As últimas eleições autárquicas produziram um resultado inequívoco na sua legitimidade, mas equilibrado na sua expressão política. A vitória da coligação Juntos por Braga por uma margem reduzida, conjugada com a representação expressiva do Amar e Servir Braga e de outras forças políticas, traduziu uma vontade plural dos bracarenses. Não houve um mandato claro para uma governação em maioria absoluta. Os bracarenses exigiram cooperação, diálogo e construção de soluções partilhadas.

É precisamente nesse ponto que importa fazer uma escolha de fundo. Não me revejo numa política redutora assente na bipolarização simplista do “nós temos razão” contra “os outros estão errados”. Essa visão não só empobrece a democracia local, como desvaloriza a diversidade de perspetivas que os cidadãos legitimamente confiaram aos seus representantes, quer na Assembleia Municipal, quer no Executivo. Num contexto onde coexistem sensibilidades distintas, essa diversidade deve ser entendida como um ativo estratégico.

Nesse sentido, torna-se pertinente dar passos concretos. A criação de mecanismos regulares de concertação entre todas as forças representadas permitiria discutir, com antecedência e profundidade, as prioridades estruturais do concelho (mobilidade, habitação, ambiente, desenvolvimento económico) antes da sua tradução em decisões executivas. É vital reconhecer que a construção de agendas estratégicas partilhadas não limita a ação do executivo, pelo contrário, reforça a sua legitimidade política e contribui para decisões mais estáveis, coerentes e sustentadas no tempo.

Importa, igualmente, valorizar o papel da Assembleia Municipal enquanto órgão de escrutínio qualificado. A fiscalização democrática não deve ser confundida com obstrução, nem o debate com conflito estéril. Uma governação de qualidade assenta no equilíbrio entre decisão e controlo, entre execução e transparência. Fragilizar qualquer destes pilares é comprometer a confiança dos cidadãos, como foi amplamente explicado pelo Professor Joaquim Freitas da Rocha, na sua intervenção na comemoração dos 50 anos da Constituição de 1976, no passado dia 25 de abril, no Theatro Circo.

Há ainda um outro plano que não pode ser ignorado: o da participação cívica. Numa cidade dinâmica como Braga, os cidadãos não podem ser meros destinatários de políticas públicas , mas devem assumir-se como parceiros essenciais na sua construção. Reforçar instrumentos de participação, tornar os processos mais acessíveis e promover uma cultura de proximidade são condições indispensáveis para uma democracia local mais robusta e inclusiva.

A política local não pode, pois, resvalar para a lógica de feudo ou para jogos de poder desligados da realidade concreta das pessoas. Quando as propostas são avaliadas pelo seu mérito, quando as decisões são orientadas pelo interesse público e quando existe disponibilidade genuína para construir consensos, há ganhos para todos. Todos fomos eleitos para servir. E servir implica ouvir, negociar, ceder quando necessário e, acima de tudo, colocar Braga acima de qualquer estratégia partidária ou pessoal.

Num tempo em que a confiança nas instituições é frequentemente posta à prova, a resposta não reside no fechamento nem na imposição, mas na abertura, no diálogo e na responsabilidade partilhada. Esse é o caminho que melhor serve Braga, e é esse o compromisso que continuarei a defender.

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