Antes de escrever este artigo, fui ler e analisar documentos técnicos, mas também falar com algumas pessoas que frequentam o Parque da Rodovia ou fazem caminhadas pela ciclovia nas margens do rio Este. Não sendo a minha área de especialização, assumo aqui deliberadamente o olhar de utente e de munícipe.
Durante décadas, o rio foi tratado como um problema a esconder. Canalizado, artificializado, poluído, perdeu a sua função ecológica e presença urbana. A renaturalização em curso corrige, em parte, esse erro estrutural. A devolução de margens mais naturais, a introdução de vegetação ribeirinha e a reconfiguração do leito são intervenções importantes. Não se trata apenas de “embelezar”, mas de restaurar processos ecológicos. O Parque da Rodovia, neste contexto, também ganhou qualidade evidente. Tornou-se um espaço vivido, com uso intensivo e transversal, algo que qualquer cidade procura. Reconheço, igualmente, ambição nos projetos que se anunciam, nomeadamente a criação de novas áreas verdes articuladas com bacias de retenção para mitigar cheias. Se bem executadas e mantidas, estas intervenções podem elevar Braga a um patamar de referência nacional neste domínio.
Todavia, seria intelectualmente desonesto ignorar o que continua a falhar. O problema da poluição não desapareceu, apenas se tornou menos visível em certos troços. As descargas no rio persistem, com episódios recorrentes, e não há renaturalização sustentável sem controlo rigoroso das fontes de contaminação. Continua a falhar a monitorização contínua da qualidade da água, o rastreio efetivo das descargas, a responsabilização de infratores e a transparência pública dos dados. Sem isto, teremos um rio com aparência saudável e funcionamento ecológico comprometido.
A questão da segurança no parque merece, também,uma análise responsável. Espaços urbanos intensamente utilizados tendem a gerar zonas de conflito ou desconforto e a resposta não pode ser apenas policial. Segurança eficaz constrói-se com iluminação adequada, eliminação de zonas ocultas, manutenção cuidada e, sobretudo, com ocupação qualificada do espaço. Assim, uma programação cultural, desportiva e comunitária regular cria presença constante e diversificada e é o melhor antídoto contra a degradação.
Importa, contudo, garantir a manutenção dos espaços e dos equipamentos. Sem controlo de espécies invasoras, sem limpeza seletiva, sem acompanhamento técnico, o que hoje é ganho amanhã pode ser regressão. A qualidade do espaço público mede-se na sua consistência ao longo do tempo, não no impacto inicial.
Braga está a fazer algo estruturalmente certo, mas ainda incompleto. Há mérito nas intervenções, visão nos projetos e impacto positivo na vivência urbana. Porém, há também falhas que não podem ser varridas para debaixo do tapete, nomeadamente a poluição persistente e a abordagem simplista à segurança. A diferença entre um caso de sucesso e mais um exemplo de urbanismo inconsequente dependerá da capacidade de enfrentar estes problemas.