A autonomia de uma pessoa pode perder-se num passeio demasiado estreito, numa passadeira inacessĂvel ou numa paragem de autocarro sem abrigo ou enfiada numa valeta. Sem polĂticas de promoção da natalidade, Braga, tal como o paĂs, está a envelhecer. Mas o territĂłrio continua demasiado desenhado a contar apenas com pessoas jovens, saudáveis e, sobretudo, motorizadas.
A ausência de passeios, os passeios estreitos ou degradados, os carros estacionados sobre o espaço pedonal e as passadeiras sem continuidade são pequenos incómodos para uma pessoa jovem. Já para uma pessoa com deficiência, mobilidade reduzida ou para um idoso, podem tornar-se um impedimento à deslocação.
Num concelho onde os perĂodos de calor sĂŁo cada vez mais frequentes e intensos, a falta de sombra, bancos e bebedouros afasta muitos idosos do espaço pĂşblico. Mas tambĂ©m a chuva cria barreiras: passeios inundados, buracos escondidos pela água, calçada escorregadia e paragens sem abrigo tornam as deslocações mais difĂceis e perigosas. A acessibilidade nĂŁo Ă© apenas uma questĂŁo de projeto, Ă© tambĂ©m uma questĂŁo de manutenção.
A minha filha tem-me alertado muito para os tempos semafĂłricos insuficientes para “os velhinhos conseguirem atravessar”. Diz-me que nĂŁo Ă© justo, porque eles demoram mais tempo a atravessar a rua. Tem razĂŁo. Este facto, aliado ao medo do trânsito e ao excesso de velocidade, exclui algumas pessoas do espaço pĂşblico. Há pessoas que deixam de sair de casa nĂŁo por vontade prĂłpria, mas porque o territĂłrio deixa de ser acessĂvel.
Um avĂ´ que vive a apenas 6 km da Arcada contava-me que demorou quase 3 horas de autocarro a fazer uma viagem de apenas 6 km para cada lado que levaria cerca de 30 minutos de carro. “Estive muitos anos na SuĂça, nunca me aconteceu igual”, dizia-me.
A falta de prioridade dada ao transporte pĂşblico, que poderia acontecer atravĂ©s de corredores BUS, gestĂŁo do trânsito ou reorganização da rede viária, resulta em serviços menos fiáveis e menos competitivos. Um transporte pĂşblico irregular ou inacessĂvel empurra muitas pessoas para o isolamento. A qualidade do sistema nĂŁo depende apenas dos autocarros, mas tambĂ©m da frequĂŞncia, dos tempos de viagem e das condições das paragens. É difĂcil justificar investir cerca de 300 mil euros num Ăşnico abrigo junto ao hospital quando continuam a existir centenas de paragens sem abrigo, acessibilidade ou informação.
Quando não há proximidade dos serviços e do comércio, quando a farmácia, o centro de saúde ou o supermercado são longe, isso cria dependência automóvel numa população que muitas vezes já não conduz. Envelhecer bem não depende apenas dos cuidados de saúde. Depende também de conseguir chegar a pé à farmácia, ao café, ao jardim ou à mercearia.
Um concelho amigo dos idosos tem bancos, árvores e sombra. Um concelho acessĂvel nĂŁo Ă© apenas um concelho sem barreiras arquitectĂłnicas. É conforto, proximidade, segurança e autonomia. Um concelho preparado para envelhecer Ă© melhor para toda a gente. Passeios de qualidade, sombra, velocidades seguras e bons transportes pĂşblicos beneficiam crianças, adultos e idosos.
A escolha do modelo de urbanismo Ă© muito mais do que uma decisĂŁo sobre o territĂłrio. É tambĂ©m uma escolha social. O isolamento social nĂŁo resulta apenas da idade ou das circunstâncias individuais. É tambĂ©m consequĂŞncia de mais de uma dĂ©cada das mesmas opções polĂticas e da continuidade dos mesmos responsáveis pela gestĂŁo do urbanismo e do espaço pĂşblico no concelho.
Se uma pessoa idosa consegue viver com autonomia, segurança e dignidade, entĂŁo o territĂłrio está preparado para todos. Se nĂŁo consegue, o problema nĂŁo está na idade. Está na forma como construĂmos a cidade.