Pão e Circo

No século III, e no âmbito de uma reforma administrativa, é criada pelos romanos a província da Galécia que compreendia, grosso modo, todo o noroeste peninsular. Braga, dada a sua já reconhecida importância,foi escolhida para ser a capital desta província, tornando-se a única capital romana em território português.

Os romanos, em Braga, foram responsáveis por terem orquestrado uma profunda revolução cultural, onde, para o efeito, construíram diversas infraestruturas de cariz artístico, nas quais se incluía o Teatro Romano: um edifício de planta semicircular – altamente influenciada pelos Teatros Gregos – concebido para a exibição dedramas, comédias ou tragédias. Estes espaços culturais integravam, contudo, uma lógica mais alargada de organização social e política.

Foi precisamente nesse contexto que o poeta Juvenalcunhou a expressão panem et circenses – “pão e circo”. A ideia era simples: garantir alimento e distração ao povo para evitar contestação e assegurar a estabilidade do poder.

Desengane-se o leitor se considerar que esta lógicaabandonou a política bracarense de vez. Efetivamente, persiste 2000 anos depois, ainda que de forma mais subtil ou dissimulada. 

Temos vindo a assistir, desde o início deste mandato,a um exemplo absolutamente flagrante no que diz respeito à “Epopeia do BRT”, na qual, nos últimos 12 anos, os bracarenses têm sido convidados a assistir a um verdadeiro circo, onde os protagonistas são os políticos e as vítimas são os munícipes – que vêm a sua mobilidade constantemente adiada. Tornou-se um exemplo paradigmático de como uma solução apresentada como essencial e irreversível pode, afinal, desaparecer e ser revertida (pelos únicos que sempre a defenderam) sem que os problemas de fundo se resolvam. Durante anos, foi apontado como resposta inevitável. De repente, deixou de o ser Na verdade, a “Variante” surge, não para finalizar o espetáculo, mas para apenas lhe conferir uma nova temporada. É introduzida numa tentativa de desviar o foco público das verdadeiras intenções e, simultaneamente,amainar a contestação bracarense no que à sua mobilidadediz respeito. Assim, fica clara a lógica do “pão e circo”: anúncios que criam expetativa, promessas que ocupam o espaço mediático – mas que raramente se traduzem em melhorias efetivas no dia a dia dos cidadãos e que apenas ajudam a redirecionar a atenção para longe dos problemas reais.

O mesmo padrão de atuação é visível no património: depois da queda de Roma, o Teatro fica votado à ruína eassim permaneceria até 1999, altura em que foi finalmente descoberto. Não é caso único, também o Coliseu Romano, em Maximinos, foi votado (pasme-se) à destruição pela força do cimento em pleno século XX. À exceção de algumas escavações sazonais protagonizadas pela Universidade do Minho, e apesar de volvidos 27 anos, o Teatro tem visto pouco ou quase nenhum progresso capaz de devolver à cidade um espaço que testemunhe a sua importância histórica.

Com efeito, durante esta semana, assistimos a um novo anúncio por parte do presidente do município, que,asseguraria o término das escavações e a abertura deste monumento. Sem prazos definidos, nem estratégia transparente, o anúncio arrisca-se a ser apenas isso: mais um momento de expectativa num processo já longo.  É apenas mais um eco de uma promessa com 27 anos de idade. Recordo: este é o único Teatro Romano a céu aberto em Portugal e o único do noroeste peninsular. Constitui, portanto, uma prova da grande importância da Braga de outros tempos. Saibamos, portanto, reconhecê-lo como tal. 

O património histórico da cidade, tal como a sua mobilidade, não carecem de mediatismos, mas sim demedidas objetivas e execuções eficazes que valorizem e dignifiquem o peso histórico da cidade e que tragam, acima de tudo, melhorias significativas à qualidade de vida dos bracarenses.

Pão e CircoNão, obrigado.

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