A recente decisão de João Rodrigues, atual presidente da CMB, em adiar o projeto do BRT tem sido apresentada, por alguns, como uma demonstração de agilidade política. Porém, uma análise rigorosa da gestão pública obriga-nos a encarar este recuo sob uma ótica menos gloriosa: a do amadorismo e da gritante falta de planeamento.
A principal questão é esta: O que ganha Braga, afinal, com este recuo no BRT? Não vislumbro qualquer vantagem estratégica ou económica; vejo apenas o regresso à incerteza. Perdem-se, no curto prazo, os benefícios financeiros e de planeamento de um projeto que, embora tecnicamente insuficiente, como o movimento Amar e Servir Braga sempre afirmou, tinha financiamento garantido e permitia uma transição responsável para um sistema de mobilidade mais moderno.
Na gestão de um município, o improviso não é uma virtude; é uma patologia grave da governação. O presidente da CMB não deve conduzir os destinos do concelho com base no “feeling” ou no acaso. Pelo contrário, a administração pública exige estudos cuidados, análise técnica e racionalidade, para se poderem tomar decisões informadas. O adiamento da linha vermelha do BRT constitui uma rutura abrupta em relação a um processo que foi suficientemente discutido e negociado ao longo de anos. Põe em causa o trabalho de várias equipas multidisciplinares que emprestaram a sua melhor competência ao projeto. Num cenário em que o financiamento de 100 milhões de euros estava garantido e os contratos de obra e fiscalização já se encontravam assinados, reverter o processo, em meia dúzia de dias, carece de uma fundamentação técnica muito robusta. Uma alteração desta magnitude exige uma explicação clara e cabal aos bracarenses, algo que ainda não aconteceu. O que se alterou face aos dados anteriores? Quais os novos argumentos que levaram à decisão? Que vantagens decorrem deste recuo?
Ao contrário de áreas onde a decisão é tomada em frações de segundo, por instinto ou intuição, a política autárquica permite, e exige, muita ponderação. A gestão municipal não pode recorrer à “tentativa e erro”, especialmente quando estão em causa projetos estruturais e de grande envergadura. O argumento de que o BRT não serve Braga não tem validade quando a decisão resulta num adiamento sine die. Mais do que uma pausa estratégica, o anúncio deste adiamento soa como o prenúncio do seu cancelamento definitivo.
A estratégia comunicacional para anunciar esta decisão seguiu, aliás, uma velha tática política: tentar camuflar uma péssima notícia (fim do BRT) com o anúncio simultâneo de uma promessa popular (construção da variante de Braga). Contudo, a realidade é crua: a única garantia que temos é que o BRT se perdeu. Quanto à variante, restará ver se, quando e com que meios será concretizada. Esperemos, inclusive, que os recentes estragos na região de Leiria, que exigirão um enorme esforço financeiro do Estado (o equivalente a mais de 31 Variantes do Cávado), não releguem Braga para o fim da lista das prioridades nacionais.
Na gestão pública, a consistência e a previsibilidade são ativos muito mais valiosos do que as manobras políticas de última hora. A boa governação faz-se com projetos no terreno, segurança jurídica e respeito pelos compromissos assumidos. Braga não precisa de atos isolados de suposta audácia; precisa de rigor administrativo. O futuro da mobilidade urbana é demasiado crítico para ficar à mercê de impulsos políticos.