Do ad hominem à erosão da responsabilidade

No atual panorama do discurso político nacional e local, assistimos a uma inversão perversa da dialética clássica. A crítica é frequentemente recebida não como um contributo, mas como uma declaração de guerra. Esta resistência manifesta-se através de uma tríade perniciosa: o ataque pessoal (ad hominem), a negação da responsabilidade e o isolamento na sobranceria hierárquica.

O recurso ao ataque pessoal é o sintoma mais evidente da debilidade argumentativa. Quando o conteúdo de uma crítica é sólido, o recetor, incapaz de o refutar logicamente, opta por assassinar o carácter do emissor (“matar o mensageiro”, como prosaicamente costumamos dizer).

Na esfera política, este fenómeno é exacerbado pela polarização. Se um erro de gestão é apontado, a resposta padrão não é a análise dos dados, mas a catalogação do crítico como “opositor” ou “ressentido”. Admitir um erro exige que o indivíduo aceite uma imagem de si mesmo que não corresponde à sua idealização de competência. Para evitar o desconforto desta tensão, prefere-se atribuir a culpa a fatores externos, a interpretações erradas ou, no limite, a uma intenção malévola de quem critica.

A sobranceria, ou o que os gregos chamavam de húbris, é, por estes dias, algo tão comum no debate político que nos questionamos se a forma não pretende subvalorizar o conteúdo e torná-lo imune ao contraditório. Os decisores políticos devem saber lidar com visões contrárias, pois um líder que não desce do seu palácio de cristal torna-se refém da sua própria infalibilidade fictícia. Enquanto a crítica for encarada como uma afronta pessoal e não como um instrumento de aferição, continuaremos reféns de lideranças frágeis que confundem autoridade com autoritarismo.

Um dos aspetos mais desoladores do panorama atual é a formação de “exércitos” de subordinados e seguidores. Estes grupos não funcionam como filtros de qualidade, mas como câmaras ressonância e escudos humanos. Quando há críticas, estes seguidores não param para analisar os argumentos da parte contrária, mas limitam-se a “defender a sua dama” com uma ferocidade cega. Isto preocupa-me, pois, a lealdade acrítica anula o pensamento individual. Queremos tribos ou indivíduos com pensamento crítico? Ter pessoas com ideias diferentes, sem medo de as expressar, abertas ao contraditório e à critica enriquece qualquer instituição, incluindo partidos e movimento políticos.

Ressalvo, no entanto, que o peso da integridade não recai apenas sobre quem recebe a crítica. Por vezes, a crítica é mal fundamentada, enviesada ou movida por interesses que nada têm a ver com a melhoria da realidade. Exige-se, igualmente, que quem critica saiba retratar-se de forma honesta e célere quando percebe que errou. Se persiste num erro óbvio por mera teimosia ou estratégia, as suas intervenções futuras serão lidas como meros artifícios mediáticos ou ataques políticos. A autoridade moral para apontar o dedo a outrem advém da capacidade de apontar o dedo a si mesmo quando o erro é próprio.

Em suma, enquanto o ego for maior do que o desejo de aprender, continuaremos presos num ciclo de ataques e defesas que nada constroem. É necessário exercer uma cidadania institucional que privilegie a solução em detrimento da retaliação. Quando o “exército de seguidores” abdica do pensamento crítico para proteger o líder, ou quando quem critica o faz apenas por artifício mediático, ambos estão a falhar a sua responsabilidade para com o bem comum.

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