Braga entre o betão e a memória

Criticar o passado exige responsabilidade no presente.

A construção e o desenvolvimento urbano de Braga durante os longos mandatos de Mesquita Machado continuam a suscitar debate, mesmo anos depois do fim do seu ciclo político. Não é difícil perceber porquê. Foram quase quatro décadas em que a cidade e o concelho cresceram de forma intensa, acompanhando transformações económicas, demográficas e sociais profundas.

Há quem veja nesse período uma etapa decisiva de modernização. Braga deixou de ser uma cidade relativamente periférica para afirmar-se como um centro urbano dinâmico no Norte do país. Novos bairros surgiram, a rede viária expandiu-se, infraestruturas foram construídas e a cidade ganhou visibilidade nacional e internacional. Para muitos, a política urbanística desse tempo respondeu à necessidade de acolher uma população crescente, impulsionada pela expansão da Universidade do Minho, pela dinâmica empresarial e pela crescente atratividade da cidade.

Todavia, a história não se escreve apenas com os argumentos dos defensores. Desde cedo surgiram também críticas severas ao modelo de crescimento urbano adotado. Muitos urbanistas e setores da sociedade apontaram aquilo que consideravam ser um desenvolvimento demasiado acelerado e, em certos casos, pouco harmonioso. Falaram de excesso de construção, de urbanizações densas, de insuficiência de espaços verdes e de uma estrutura urbana nem sempre coerente. Para esses críticos, Braga cresceu mais depressa do que planeou.

Este confronto de leituras faz hoje parte da memória coletiva da cidade. No entanto, alguns dos que então apontavam os defeitos do urbanismo bracarense parecem esquecer, no presente, que a própria experiência histórica da cidade exige hoje uma abordagem mais cautelosa e rigorosa.

Uma cidade que aprende com o seu passado não pode repetir os mesmos erros. Um concelho que pensa no presente e no futuro precisa de se reger por princípios de urbanismo coerente, sustentável e equilibrado. Isso implica olhar para cada licenciamento urbanístico com atenção ao detalhe, ponderando impactos na mobilidade, no ambiente, na paisagem urbana e na qualidade de vida dos cidadãos.

Não se trata apenas de autorizar ou recusar construção. Trata-se de garantir que cada decisão se insere numa visão global para o concelho que cresce, mas que cresce com critério, que se desenvolve, mas preserva a sua identidade, que acolhe novos habitantes sem comprometer o bem-estar coletivo. Sim, é importante discutir a cor dos azulejos do edificado histórico. Sim, é importante saber se a nova construção terá passeios. Sim, é preciso saber se existem linhas de água em zonas de construção. O concelho merece este escrutínio.

A discussão sobre o legado urbanístico de Braga durante os mandatos de Mesquita Machado continuará certamente a existir. Contudo, mais importante do que reabrir permanentemente esse debate é assegurar que o planeamento urbano de hoje integra as lições de ontem.

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