As cidades também florescem

Adoro ver programas sobre jardins ingleses. Eu, que dificilmente distingo uma dália de uma rosa, fico fascinada com o amor dos britânicos pelos seus jardins.

Há qualquer coisa de profundamente civilizacional naquela forma de cultivar a terra. Em Inglaterra, os jardins parecem labirintos de verde, salpicados pelas cores do arco-íris das várias espécies de flores, onde cada árvore, cada arbusto e cada canteiro parece ter o seu lugar.

Em Portugal, pelo contrário, parece valorizar-se mais um relvado verdinho, impecavelmente aparado, do que a diversidade de flores e arbustos que poderia transformar um espaço num lugar verdadeiramente vivo.

Talvez porque não sejamos, atualmente, um povo de jardineiros, tenhamos permitido que as nossas cidades e vilas se transformassem em lugares cada vez mais tórridos, onde o betão e o automóvel ganharam demasiado espaço. Plantámos pavimentos onde poderíamos ter plantado árvores, impermeabilizámos solos, reduzimos sombras e, muitas vezes, confundimos espaço público cuidado com espaço público sem vida.

Todavia, há quem esteja a perceber que este caminho não é inevitável.

Por esse mundo fora, há cidades a acordar. Paris tem avançado com a transformação de ruas e espaços públicos, criando mais áreas verdes e reduzindo o espaço dedicado aos automóveis. Barcelona tem experimentado os “superblocks”, devolvendo ruas às pessoas e criando espaço para árvores, jardins e convivência. Milão aposta no aumento da arborização urbana. Muitas outras cidades estão a descobrir que uma cidade mais verde não é apenas mais bonita, mas também mais fresca, mais saudável, mais sustentável e mais humana.

NĂŁo se trata de transformar as cidades em jardins ingleses, mas de perceber que uma cidade sem árvores, sem sombra, sem flores e sem lugares onde permanecer Ă© uma cidade que expulsa as pessoas  ou que as mantĂ©m dentro de casa.

Como sou uma sonhadora, com uma certa veia quixotesca, ainda acredito que iremos devolver as cidades às pessoas que nelas vivem. Que perceberemos que o espaço público não é apenas aquilo que sobra depois de desenharmos as estradas e os estacionamentos.

Um dia, talvez deixemos de medir o progresso pela quantidade de betão que conseguimos colocar no chão e passemos a medi-lo pela sombra que conseguimos oferecer, pelas árvores que conseguimos plantar e pela vida que conseguimos devolver às nossas ruas.

Os moinhos serão, então, derrotados. E, quem sabe, eu consiga finalmente distinguir uma dália de uma rosa.

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