“Another Brick in the Wall”, da banda Pink Floyd, é um hino de crítica ao sistema educacional rígido e autoritário, onde alunos são tratados como “mais um tijolo” em uma estrutura que sufoca a individualidade. Ao olhar para a Assembleia Municipal de Braga, percebo com estranha clareza que essa metáfora se repete: deputados que deveriam questionar e decidir transformam-se, muitas vezes, em tijolos silenciosos, assentados na parede de um Executivo que dita o roteiro.
Escrevo estas linhas ao som dessa música, numa tarde chuvosa em Braga. Lá fora, a chuva desenha reflexos cinzentos no chão, lembrando que a vida segue, mesmo quando a participação parece presa. Dentro da Assembleia, porém, o ritmo é outro: debates apagam-se e vozes críticas são abafadas. Um órgão que deveria pulsar com a democracia reduz-se, muitas vezes, a mais um tijolo na parede, repetindo padrões em vez de questioná-los.
A Assembleia deveria ser um espaço de encontros vivos, de vozes que se cruzam e desafiam, onde cada intervenção conta. Na prática, o que vemos é uma repetição silenciosa: decisões pré-fabricadas, debates apagados, vozes críticas suavemente ignoradas. É como ouvir uma música sem notas dissonantes: tudo certo, mas vazio.
Mesmo quando o tom sobe, muitas vozes transformam debate em ataque pessoal, esquecendo as ideias. E há quem diga: “é assim a política”. Não: essa é a política de alguns, não a que a democracia nos exige.
Eleita pelo Movimento Amar e Servir Braga, observo com preocupação crescente esta complacência. Uma assembleia que apenas replica ordens deixou de existir como órgão fiscalizador. Sem questionamento, sem pressão, sem rigor, é apenas um eco, uma formalidade, um cenário pintado de legitimidade ilusória.
A democracia local não é decoração; não é um quadro bonito na parede. É ação, energia, responsabilidade. Fiscalização rigorosa, debate construtivo e transparência não são obstáculos à Câmara, mas o que permite conferir sentido e legitimidade. Sem isso, Braga corre o risco de transformar seu espaço democrático num teatro, com aplausos mecânicos e decisões pré-fabricadas.
A Assembleia Municipal de Braga precisa recuperar vida, presença e coragem. Que não seja apenas mais um tijolo na parede, nem um cenário vazio; que seja o palco onde a democracia pulsa, onde cada cidadão é ouvido, e onde a responsabilidade não se limita a formalidades. Enquanto isso não acontece, seguiremos assistindo, ao som da chuva e de músicas que nos lembram de questionar, à lenta erosão de um órgão que deveria ser o farol do nosso concelho.