Cem dias de Solidão no trânsito de Macondo

Dizem que os primeiros cem dias de um mandato são o “estado de graça”, o período idílico em que o eleitorado ainda está a tirar o confetti da noite eleitoral dos bolsos e a oposição ainda está a  conhecer os cantos à casa.

João Rodrigues completou a sua primeira centúria de dias à frente da autarquia. Ora , se Gabriel García Márquez escreveu sobre “Cem Anos de Solidão”, nós, bracarenses, poderíamos estar perante os “Cem Dias de Indecisão”.

A referência a Márquez não é inocente. Por vezes, Braga tem a sua aura de Macondo: chove torrencialmente, acontecem coisas mágicas (como crateras lunares em plena via pública) e as famílias políticas repetem-se em ciclos que desafiam o tempo.

Ao assumir o leme, João Rodrigues prometeu uma nova energia, uma “Braga 2.0”. No entanto, para o cidadão comum que observa a cidade da janela do seu carro, parado no trânsito a caminho de Lamaçães, a sensação é de déjà-vu.

O maior desafio de João Rodrigues, nestes três meses e picos, foi, ironicamente, gerir a herança da qual ele próprio fez parte. Tentar descolar-se da gestão anterior, sendo ele um dos seus principais arquitetos, é um exercício de contorcionismo político digno de nota. É como tentar mudar a decoração da casa sem tirar os móveis antigos porque “ainda dão jeito”.

Nestes cem dias, vimos muitos sorrisos, muitos apertos de mão, mas nas questões estruturais, o atual presidente parece ainda estar a folhear o manual de instruções deixado na gaveta por Ricardo Rio.

A tal “Solidão” de que falava o Nobel colombiano sente-se, paradoxalmente, no meio da multidão. Sente-se na solidão do condutor que vai a uma consulta no hospital às 8 ou tenta atravessar o Nó de Infias às 18,  questionando as suas escolhas de vida, enquanto espera por uma solução mágica que a nova gestão jurou que estava “para breve”, com o BRT que deixou de ser ou com a promessa de uma variante que paira no horizonte.

Não sejamos, contudo, Velhos do Restelo. Cem dias são curtos para virar uma cidade do avesso. Há um esforço notório em parecer que se está a fazer, o que, na política moderna, é metade do trabalho.

Assim, se estes cem dias foram de solidão, esperamos que os próximos mil sejam de companhia de soluções reais para quem vive, trabalha e desespera no trânsito da melhor cidade do mundo.

O relógio não para, Senhor Presidente, e, em Braga, nem os sinos da Sé perdoam o atraso.

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