A segunda violência

Há uma segunda violência de que quase não se fala. Não deixa marcas visíveis, não é tipificada no Código Penal, mas repete-se com uma frequência inquietante. Acontece depois. Acontece sempre que alguém pergunta, com aparente naturalidade, “porque é que ela não reagiu?” ou “o que estava ali a fazer?”. Não são apenas palavras. São sinais. E quem os recebe percebe-os com uma clareza dolorosa.

Quando uma vítima de violação decide falar, não está apenas a contar o que lhe aconteceu. Está a expor-se a um julgamento público onde, demasiadas vezes, o foco se desloca. Deixa de estar no acto de violência e passa a estar no comportamento de quem o sofreu. Analisa-se a roupa, a hora, o local, as escolhas. Procura-se uma falha, uma incoerência, um detalhe que permita duvidar. É um exercício coletivo de suspeita.

No terreno, longe do ruído das caixas de comentários, o efeito é concreto. Há quem não apresente queixa porque já antecipa o que vai ouvir. Há quem recue a meio de um processo porque o peso de ser constantemente posta em causa se torna insuportável. Há quem carregue em silêncio durante anos, não por falta de coragem, mas por excesso de lucidez sobre o que a espera.

Importa dizer isto de forma simples. Não existe uma reação correta à violência. Não existe um guião universal para o medo. O corpo pode bloquear, a voz pode falhar, a mente pode procurar apenas sobreviver. E nada disso transforma uma vítima em responsável.

O direito, esse, é mais claro do que muitas conversas de café. O centro não está na resistência, está no consentimento. E o consentimento não se presume, não se adivinha, não se constrói a partir de silêncios ou de circunstâncias. Ainda assim, continuamos a perguntar às vítimas aquilo que raramente perguntamos a quem agride. Talvez porque seja mais confortável acreditar que há sempre algo que se poderia ter feito diferente. Talvez porque isso nos dá a ilusão de controlo. Mas essa ilusão tem um custo. E o custo mede-se em denúncias que não chegam a acontecer, em processos que não chegam ao fim, em vidas que ficam suspensas entre o que aconteceu e o que nunca foi dito.

A forma como falamos de violência sexual é parte do problema ou parte da resposta. Cada comentário que desvia a responsabilidade, cada dúvida lançada sem cuidado, cada julgamento apressado contribui para um ambiente onde o silêncio parece mais seguro do que a verdade.

E enquanto assim for, haverá sempre crimes que ficam por contar. Não porque não tenham existido, mas porque aprendemos, coletivamente, a não querer ouvi-los.

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