Quando Marcelo Rebelo de Sousa evocou “A Ilustre Casa de Ramires” no seu discurso de Ano Novo, convocando-a para falar das virtudes e fragilidades nacionais, fê-lo com a elegância literária que lhe é reconhecida, mas, também, com o olhar contundente que não lhe podemos negar.
Por estes dias, ocorreu-me outra obra de Eça de Queirós: “O Conde de Abranhos”. Juntamente com “A Capital”, estas obras deveriam estar na mesinha de cabeceira de muitos políticos. Numa, temos o fidalgo hesitante e contraditório de Ramires, recordado no discurso do Presidente. Na outra, temos o político medíocre elevado à categoria de estadista pela devoção incansável do seu secretário.
Marcelo escolheu Ramires como espelho das nossas grandezas e pequenas misérias. Poderia, com igual pertinência, ter escolhido o Conde para ilustrar outra tendência muito portuguesa, isto é, a facilidade com que o poder gera um séquito empenhado em converter banalidades em feitos históricos.
Se Ramires encarna a oscilação entre nobreza e fraqueza, Abranhos representa a construção de reputação através do elogio reiterado, mesmo quando a substância é escassa. Eça recorda-nos que há defeitos que se perpetuam precisamente porque são embalados por aplausos, de uma comitiva zelosa de assessores, apoiantes, ou meros comentadores digitais, que transforma cada decisão administrativa em visão estratégica e cada evento protocolar em momento fundador, com uma boa “hashtag” e partilhas programadas. O secretário oitocentista teria hoje perfil ativo em várias redes sociais, gráficos coloridos e vídeos curtos a explicar a genialidade do seu superior.
Enquanto o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa evoca um Eça que nos convida a reconhecer as nossas contradições, “O Conde de Abranhos” lembra-nos de que o verdadeiro perigo não está apenas nas fragilidades, mas na complacência coletiva que as transforma em virtudes. Quando a defesa mimetizada substitui o debate e o entusiasmo substitui a exigência, entramos em território abranchiano, onde o poder prospera menos pela obra feita do que pela narrativa bem ensaiada.
Eça, no fundo, oferece-nos duas lentes. Uma mais indulgente, outra mais cortante. Marcelo escolheu a primeira. Talvez a segunda fosse igualmente útil, sobretudo para recordar que a política nacional e local não vive do brilho do discurso, mas da capacidade de distinguir entre liderança e encenação.