No Dia Europeu da Vítima de Crime, que se assinala a 22 de fevereiro, somos convidados a olhar de frente para uma realidade que demasiadas vezes permanece escondida. Por detrás das portas fechadas, no silêncio das casas e no isolamento emocional de tantas pessoas, continuam a existir situações de violência, abuso e sofrimento que não podem ser ignoradas.
Os dados mais recentes divulgados pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima revelam um aumento significativo dos pedidos de apoio no último ano. A violência doméstica continua a representar a maioria das situações acompanhadas. Estes números não são meras estatísticas. Representam mulheres, crianças, idosos e também homens que vivem em contextos de medo, dependência e vulnerabilidade.
É verdade que o crescimento dos pedidos de apoio pode significar também maior confiança nas instituições e maior consciencialização social. E isso é um sinal positivo. Significa que mais vítimas encontram coragem para denunciar e procurar ajuda. Mas significa igualmente que as respostas têm de ser mais eficazes, mais articuladas e mais próximas das pessoas.
Enquanto comunidade, Braga não pode ficar indiferente. A coesão social não se constrói apenas com desenvolvimento económico, dinamismo cultural ou reconhecimento externo. Constrói-se garantindo que ninguém fica para trás. Constrói-se quando as redes de proximidade funcionam, quando as freguesias conhecem as realidades mais vulneráveis, quando as escolas identificam sinais precoces de risco, quando os serviços sociais dispõem de meios adequados para intervir e quando existe uma verdadeira articulação entre autarquia, instituições sociais, forças de segurança e serviços de saúde.
A violência prospera no isolamento. Prosperam também as situações de abuso quando a precariedade económica limita escolhas e aprisiona vítimas em relações destrutivas. Por isso, falar de vítimas de crime é também falar de ação social, de acesso à habitação, de apoio psicológico acessível, de combate à solidão dos idosos e de proteção efetiva das crianças. É falar de políticas municipais que reforcem os laços comunitários e promovam relações saudáveis.
Enquanto membro da Assembleia Municipal de Braga pelo movimento Amar e Servir Braga, acredito que devemos continuar a investir na prevenção, especialmente junto das escolas, promovendo educação para relações baseadas no respeito e na igualdade. Devemos reforçar o acesso ao apoio psicológico e jurídico, fortalecer a formação dos profissionais que estão na linha da frente e garantir que a Rede Social funciona de forma integrada e eficaz. É igualmente essencial apostar em estratégias de proximidade nas freguesias e manter campanhas de sensibilização permanentes, porque a prevenção não se faz apenas em datas simbólicas.
Não basta reagir quando o crime acontece. É necessário prevenir os contextos que o tornam possível. Isso exige visão estratégica, compromisso político e mobilização comunitária.
Braga é um concelho com uma forte rede associativa e um capital humano extraordinário. Temos condições para liderar pelo exemplo. Mas a solidariedade não pode ser apenas uma intenção. Tem de traduzir-se em ação concreta, coordenada e sustentada.
No Dia Europeu da Vítima de Crime, importa que reafirmemos um compromisso claro: proteger as vítimas é proteger a nossa comunidade. Um concelho verdadeiramente desenvolvido é aquele onde cada pessoa se sente segura, respeitada e apoiada. E esse é o caminho que devemos continuar a construir, juntos.