Como alguém que, há vários anos, abre as portas da escola e da cidade a famílias vindas dos quatro cantos do mundo, aprendi a ver Braga não pelos olhos de quem aqui vive há vários anos, mas pelo olhar de quem chega com a mala cheia de sonhos e, por vezes, um pouco de receio.
Ser professora neste contexto é ser uma ponte. Nesta travessia, o que mais me orgulha é testemunhar como a maioria do povo bracarense desarma qualquer barreira cultural com a sua hospitalidade. Sempre que recebo uma família nova, as histórias repetem-se, mas nunca deixam de me comover. Um pai vindo da Alemanha ou uma mãe do Brasil contam-me, admirados, que ao se sentirem perdidos numa rua do centro histórico, não receberam apenas uma indicação vaga. O bracarense diz logo: “Venha daí, eu vou para esses lados, eu acompanho-o”. E acompanha.
Quando perguntam por um lugar para comer, o bracarense assume o papel de anfitrião. Não sugere apenas um restaurante, ensina que o bacalhau tem de ser “aquele”, que a sobremesa obrigatória é o Pudim Abade de Priscos e, quase sempre, acaba a explicar a história do prato com um orgulho que brilha nos olhos. Nas nossas visitas de estudo ou nos passeios que recomendo, o espanto é inevitável. Braga oferece uma densidade histórica que muitos nunca viram. Descobrem que as nossas igrejas não são apenas monumentos, mas museus vivos de talha dourada que parecem desafiar as leis do tempo. Para quem vem de países “novos”, tocar numa pedra com mil anos é uma experiência avassaladora.
Claro que, com o crescimento da cidade, nem tudo são rosas. Lembro-me bem de um pai americano, habituado às autoestradas da Califórnia, que me dizia entre risos:
“Professora, eu adoro esta cidade, mas o trânsito… Braga está a ficar como Los Angeles! Passo mais tempo na rotunda do que passava na autoestrada 405!”
Ultimamente, as famílias estrangeiras estão a descobrir as freguesias da periferia e as zonas mais afastadas, revelando um novo capítulo desta adaptação. Longe do rebuliço das circulares, encontram um “luxo” que o dinheiro nem sempre compra: o sossego profundo e a vida rural que teima em persistir.
Nestes recantos de Braga, o encanto é outro. É a vizinha que oferece um saco de limões por cima do muro, é o tempo que abranda para deixar apreciar a natureza e o verde que invade as janelas. Estas famílias descobrem que viver em Braga também pode ser acordar com o som dos pássaros e ter espaço para respirar, sem perder o vínculo com a cidade.
Apesar do trânsito “à Los Angeles” ou da chuva persistente, o que fixa estas famílias aqui é o fator humano. Braga recebe bem porque sabe que a sua maior riqueza não está apenas no ouro das suas igrejas, mas na mão estendida de quem habita as suas ruas, seja no coração do centro histórico ou na tranquilidade de uma freguesia mais afastada. É um privilégio ver as minhas crianças estrangeiras crescerem neste ambiente onde, independentemente do sotaque, a simpatia continua a ser a língua oficial.