O Flik-Flak de janeiro: A pirueta polĂ­tica sobre o BRT

A política, tal como a ginástica artística, vive de equilíbrios. Porém, o que Braga testemunhou neste início de 2026 não foi um exercício de estabilidade, mas, usando um termo da modalidade, um flik-flak à retaguarda executado pelo novo Presidente, João Rodrigues. Uma manobra que, se por um lado procura uma nota artística elevada perante um eleitorado fustigado pelo trânsito, merece, do ponto de vista da coerência e da técnica, uma nota medíocre, pela aterragem desastrosa.

Recuemos poucos meses. Durante a campanha eleitoral, João Rodrigues foi o rosto mais intransigente na defesa do BRT (Bus Rapid Transit). Enquanto o movimento Amar e Servir Braga, liderado por Ricardo Silva, e as restantes oposições alertavam para a “teimosia” de um projeto desenhado há dez anos, desajustado da realidade e com prazos de execução (via PRR) manifestamente impossíveis, João Rodrigues continuava a defender: “O BRT é uma peça fundamental do nosso puzzle de mobilidade. Retirar carros do centro exige alternativas fiáveis e o BRT é essa resposta.” (Debate da Rádio Observador, a 4 de setembro de 2025).

Foi assim durante toda a campanha. Na rádio, em debates e em artigos, a narrativa era clara: o BRT era a peça central do “puzzle” da mobilidade. Chegou a afirmar, com convicção, que o sistema era vital para retirar carros do centro e que a sua fiabilidade era inquestionável. Dizia o candidato e ainda vereador, João Rodrigues, que “O BRT é um sistema que Braga precisa e que vai revolucionar a forma como nos movemos”.

Ora, como o Presidente gosta de citar os eleitos pelo Movimento Amar e Servir Braga, vou relembrar que Ricardo Silva foi clarividente quando apelidou o BRT de “solução de cosmética”, criticou o impacto cego no comércio e o isolamento de freguesias. Propôs alternativas como o Tram-Train e o foco na rede ferroviária regional.

Na altura, o Presidente rotulou as crĂ­ticas ao BRT de “pessimismo eleitoral”.  A 13 de setembro, no Correio do Minho, Ricardo Silva voltava a alertar que o processo do BRT estava desajustado, pois “foi feito para ser de fácil implementação, mas hoje já nĂŁo chega para a cidade.” Todavia, JoĂŁo Rodrigues continuava a afirmar que quem dizia que o BRT nĂŁo era executável ou que iria destruir o centro estava apenas a fazer demagogia polĂ­tica, pois o projeto estava estudado. Aliás, quatro dias antes do fabuloso flik-flak, foi aprovado o Plano Diretor Municipal que o Presidente referiu ser â€ť o documento estratĂ©gico que Braga precisa para as prĂłximas dĂ©cadas”, acrescentando que “o BRT Ă© a sua espinha dorsal.”

Em que ficamos, senhor Presidente? Quer que acreditemos que recebeu um telefonema do senhor Ministro das Infraestruturas no fim de semana que mediou a aprovação do PDM e a sua conferência de imprensa e que, em quatro dias, repensou toda a sua estratégia para o BRT?

Não pode alegar desconhecimento do dossiê. Enquanto vereador do anterior executivo, teve acesso a todos os pareceres técnicos que já indicavam os riscos que agora usa como pretexto para o “travão”. É um caso de estudo de incongruência administrativa. Como é que uma “opção estratégica essencial” no documento mais importante da gestão do território se torna descartável menos de uma semana depois?

Como disse, João Rodrigues tentou arrancar uma nota artística alta ao cancelar o BRT no centro, como um ato de coragem política para “salvar o comércio” e “evitar o caos”. Porém, a nota técnica desta coreografia é baixa.

A oposição passou meses a avisar que o cronograma era irrealista e o projeto mal desenhado. O  Presidente ignorou-a, rotulando as crĂ­ticas de cegueira eleitoral. Deixo aqui, no entanto, o que disse na sua Ăşltima conferĂŞncia de imprensa: “Começar o BRT pelo centro da cidade iria causar prejuĂ­zos a Braga que iriam demorar a tornarem-se num benefĂ­cio”, dando razĂŁo ao que o Movimento Amar e Servir Braga sempre afirmou.

Não deixa, contudo, de ser interessante, uma outra referência na mesma conferência: “Tivemos de tomar uma decisão ponderada. Entre cumprir o PRR e hipotecar o centro, escolhemos salvar a cidade.” Pena que não tenha pensado da mesma forma quando acusou a oposição de ser irresponsável ao aconselhá-lo a repensar as obras do largo do Pópulo, para não hipotecar o centro e salvar a cidade.

Em suma, Braga merecia mais do que uma acrobacia política. Merecia a verdade estratégica quando os votos ainda estavam em jogo, e não apenas quando as luzes da campanha se apagaram.

Scroll to Top